O Gado Maronês enquanto Espécie Companheira: Reflexões sobre Relações Multiespécie e Cultura Ambiental em Trás-os-Montes e Alto Douro
DOI:
https://doi.org/10.21664/2238-8869.2026v15i2.8706Palabras clave:
paisagem rural, animal, cultura ambiental, prática social, espécies companheirasResumen
O artigo analisa o gado maronês enquanto espécie companheira dos humanos habitantes da região de Trás-os-Montes e Alto Douro, discutindo relações multiespécie, a cultura ambiental e habitus. Contextualiza historicamente a presença da raça maronesa nas serras do Marão, Alvão e zonas adjacentes, articulando a longa antropização da paisagem, a memória do auroque ibérico e a inscrição da raça num território serrano marcado por condições climáticas extremas, práticas agrícolas de subsistência e forte densidade simbólica e cultural. A partir de fontes documentais e bibliográficas, entrevistas e observação in loco, o texto explora as interações entre maronesas, lobo ibérico, pessoas e seus cães, evidenciando esquemas práticos de manejo, defesa e cooperação que produzem práticas sociais e saberes locais transgeracionais. Analisa-se ainda a chamada “aptidão laboral natural” da maronesa, destacando o papel da raça na lavra, no transporte de pessoas e mercadorias e nas feiras regionais, onde o gado é exibido como capital económico e simbólico e elemento de prestígio familiar. Argumenta-se, ainda, que o gado maronês excede leituras estritamente utilitaristas, configurando-se como espécie companheira central na produção de uma cultura ambiental específica, na manutenção de práticas e memórias comunitárias e na construção de pertenças telúricas, refletindo sobre modelos de gestão de montanha que articulam conservação da biodiversidade, agricultura familiar e projetos contemporâneos de desenvolvimento local.
Citas
Alves VC. 1993. Estudo sobre a raça bovina maronesa: Situação actual e perspectivas zootécnicas. Tese de doutoramento, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 172 pp.
Aires JR. 2021. História das Freguesias do Concelho de Vila Real. Editoria Maronesa, Vila Real, 788 pp.
Bourdieu P. 1989. O poder simbólico. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 311 pp.
Carson R. 1962. Silent spring. Houghton Mifflin, Boston, 378 pp.
Cordeiro OT. 2025. “Feira de Santo António mantém a tradição de promover o gado maronês”. A Voz de Trás-os-Montes, 18 de junho, 2025. https://www.avozdetrasosmontes.pt/feira-de-santo-antonio-mantem-a-tradicao-de-promover-o-gado-marones
Dias GF. 2001. Educação ambiental: Princípios e práticas (7ª ed.). Gaia Editora, Porto, 550 pp.
Duarte RH. 2013. História e natureza. Autêntica, Belo Horizonte, 112 pp.
Emmett, R., & Nye, D. 2017. The environmental humanities: A critical introduction. The MIT Press, Cambridge, 246 pp.
Faria, M.M. 2019. Os cornos do Auroque: raças de bovinos no norte de Portugal. ATAHCA. https://atahca.pt/ficheiros/os_cornos_do_auroque.pdf
Farias, A. C. R. 2024. Cães de Pastoreio e Guarda de Rebanho na Produção Animal. Trabalho de conclusão do Bacharelado em Zootecnia, Instituto Federal Goiano, 49 pp. https://repositorio.ifgoiano.edu.br/bitstream/prefix/4996/1/TCC_vers%c3%a3o_final%5b1%5d.pdf
Hannigan JA. 2006. Environmental sociology. Taylor & Francis e-Library, Londres, 208 pp.
Haraway, D. 2021. O manifesto das espécies companheiras: Cachorros, pessoas e alteridade significativa. Bazar do Tempo, Rio de Janeiro, 184pp.
Kirksey SE, Helmreich S. 2010. The emergence of multispecies ethnography. Cultural Anthropology, 25(4), 545–576. https://anthropology.mit.edu/sites/default/files/documents/helmreich_multispecies_ethnography.pdf
Kunzler J, Oliveira VD de. 2021. Paleogenômica e museologia: Os museus e o paradoxo do Antropoceno. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 16(1). https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2020-0039
Loureiro CFB, Torres, JR. 2014. Educação ambiental: Dialogando com Paulo Freire. Editora Cortez, São Paulo, 184 pp.
Marconi MA, Pressoto ZM. 2010. Antropologia: Uma introdução. Atlas, São Paulo, 353 pp.
Oliveira, H. 2021. Conferência Conversas à Sexta - 48 horas. Terra Maronesa.
Pimentel V, Álvares F. 2005. Situação populacional do lobo em Portugal: Resultados do censo nacional 2002–2003. https://www.researchgate.net/publication/312887510_Situacao_populacional_do_lobo_em_Portugal_resultados_do_censo_nacional_2002-2003
Schama S. 1996. Paisagem e memória. Companhia das Letras, São Paulo, 696 pp.
Schüler TG, Magalhães ML. 2021. Uma história ambiental da Batinga Sul: Rio Grande do Sul, Brasil. História Ambiental Latino-Americana e Caribenha, 11(1), 276–305. https://doi.org/10.32991/2237-2717.2021v11i1.p276-305
Teixeira, P, Alves, V. 2002. Maronesa. Animais domésticos de Portugal. http://anidop.iniav.pt/images/Fichas_2019/Ficha-Bov-Maronesa_on-line_2019.pdf
Teixeira, P, Alves, V. 2006. Raça Bovina Maronesa. Cadernos Voz Da Terra, 58, 70 pp.
Tsing AL. 2012. Unruly Edges: Mushrooms as Companion Species. Environmental Humanities, 1, 141-54. http://www.environmentandsociety.org/node/5415
Tsing AL. 2019. Viver nas ruínas: Paisagens multiespécies no Antropoceno. IEB/Mil Folhas, Brasília, 284 pp.
Van Vuure, T. 2002. History, morphology and ecology of the aurochs (Bos primigenius). Internet Archive Way Back Machine. https://citeseerx.ist.psu.edu/document?repid=rep1&type=pdf&doi=7cd5da765261db6b99ce44361fa8078ec7951c42
Vieira AMF. 2015. Contributo para o estudo dos vestígios arqueológicos: Do VI ao I milênio a.C. Paisagens e memórias na bacia hidrográfica do Douro. Tese de doutoramento, Universidade do Porto, 700 pp.
Worster, D. 1991. Para fazer história ambiental. Estudos Históricos, 4(8), 198–215. https://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2324
Descargas
Publicado
Cómo citar
Número
Sección
Licencia
Derechos de autor 2026 Thais Gaia Schüler, Filipe Ribeiro, Orquídea Moreira Ribeiro, Darly Prado Gonçalves

Esta obra está bajo una licencia internacional Creative Commons Atribución-NoComercial 4.0.
Esta revista oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento.
A partir da publicação realizada na revista os autores possuem copyright e direitos de publicação de seus artigos sem restrições.
A Revista Fronteiras: Journal of Social, Technological and Environmental Science segue os preceitos legais da licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.
